Como aproveitar o verão quando o corpo e a alma estão no inverno?
Quando o momento é de hibernação, é preciso preservar energia, acumular reservas; a alma pede pausa, descanso e respiro.
Essa estação solar tão significativa para mim, este ano está em segundo plano — e foi doloroso aceitar isso. Aqui dentro da caverna, vê-se ao longe a luz do sol, mas não é ela que importa agora. A preservação e a cura andam cedendo espaço à alegria contagiante de viver o externo.
Em alguns momentos, permito-me receber a energia do sol e do sal na pele — mesmo que por apenas duas ou três horas. Inalo a maresia, recebo o carinho da bruma do mar. E depois, me retiro de volta ao meu porto seguro: minha casa, que me acolhe como afago de mãe e embala as minhas dores.
Descobri que envelhecer é, mais do que nunca, respeitar o tempo, os ciclos e as mudanças. Meu corpo já não é o mesmo — e como é duro aceitar isso com amor! Já não me sinto tão confortável dentro de um biquíni, os fios brancos da minha cabeça por vezes me constrangem e as linhas a mais no rosto lembram, sem trégua, que já não sou uma menina.
Como se não bastasse, o organismo resolveu se rebelar, trazendo desconfortos quase diários.
Parece que um ciclo se encerra, que o tempo acabou… Perimenopausa, alguns dizem. Ainda estou por descobrir, mas não quero me deixar abater.
O sol está demasiado quente lá fora — e sentir ele beijando a pele do meu rosto, tornando meus olhos castanhos em esverdeados, me enche de vivacidade.
Por tudo isso, aproveito o verão de forma leve e no meu ritmo. Ainda que o mundo lá fora me chame para brincar, respeito o meu tempo com amor.
Mesmo que o verão me chame para fora, permaneço fiel ao que pulsa aqui dentro. O sol pode esperar — o meu tempo é sagrado.
Em agosto, faço 44. E tenho pensado cada vez mais sobre essa travessia que chamam de perimenopausa. Talvez não seja só o corpo que muda — é a alma que vira maré. E eu, que sempre gostei do verão, começo a aprender a nadar em outras águas.